Mercado de Trabalho na Ilustração Científica

Muitos dos que se interessam em ser Ilustradores Científicos procuram saber mais a respeito do mercado de trabalho, se há espaço, se é possível viver apenas da IC no Brasil, quais são as áreas que esse mercado abrange e assim por diante.

Bem, devo começar a tratar desse assunto com afirmações que podem doer um pouco naqueles que consideram essa questão de importância altamente relevante. Para ser um Ilustrador Científico, é preciso ter muita dedicação ao que se faz, e isso exige uma grande dose de paixão, de esforço automático (o que significa quase esforço não esforçado). Assim, as pessoas que mais facilmente se inserem nesse mercado são exatamente aquelas que nao estão minimamente preocupadas se haverá espaço no mercado para elas. Elas quase não têm escolha, acabam sendo absorvidas de tal forma pela atividade, se envolvem com tamanha entrega, que se pode dizer que não escolheram a profissão, mas foram escolhidas por ela. Aqueles que praticamente não podem escapar da profissão são em geral os mais estáveis, competentes e, consequentemente, bem-sucedidos nesse mercado.

Quem estiver atento já deve ter percebido o que se quer dizer aqui: quem trabalha com absoluta entrega e dedicação tem seu espaço garantido. Ou, dito de outro modo, quem consegue se inserir no mercado de trabalho da ilustração científica - em geral - é quem não se preocupa com a inserção no mercado de trabalho, mas mergulha na profissão sem buscar garantias nem estatísticas. Podemos ser mais generalistas e até compreender que esse mecanismo funciona para todas as profissões, guardadas talvez certas proporções.

Isso não quer dizer que, se você se preocupa com o mercado e com suas chances de ali se inserir, não terá chance como Ilustrador Científico. Quer dizer apenas que você deve olhar mais para sua vontade de ilustrar do que a de se sustentar com isso. Porque se sua vontade de ilustrar não for forte, em pouco tempo você estará desestimulado e isso afastará seus clientes. Desestímulo com o trabalho se percebe facilmente em seus desenhos e até por telefone, ou mesmo por e-mail. E se sua vontade for forte o bastante, seu sustento virá de modo automático, pois as suas próprias ilustrações serão uma vitrine de sua entrega e dedicação ao trabalho.

Por isso, sempre que me perguntam se vale a pena investir nessa profissão, respondo que é preciso inverter o ponto de vista. A posição mais favorável não é: "se houver oportunidade no mercado eu me dedicarei", mas sim: "se eu me dedicar, haverá oportunidade no mercado".

Mas partindo agora ao rumo da discussão dentro do senso comum da necessidade de sobrevivência, de "garantias" e de "segurança" que em geral as pessoas procuram satisfazer ao fazer suas escolhas, deixemos essas filosofias dolorosas de lado e vamos pensar de modo mais prático. Fato é que a Ilustração Científica carece realmente de profissionais atuando no país. Muitos editores brasileiros procuram profissionais do exterior para ilustrar, por exemplo, manuais ou guias de identificação de aves, como me contou um dia Eduardo Brettas (um de nossos expoentes na área da ilustração ornitológica). É certo que muitas vezes se buscam profissionais no exterior por desconhecimento do gabarito de nossos ilustradores, ou mesmo por falta de acesso a eles, pela falha na divulgação da atividade no Brasil (falha essa que procuramos sanar organizando os encontros e exposições bianuais de Ilustradores Científicos). Ainda assim, há amplo espaço para novos ilustradores e este espaço continua sendo preenchido vagarosamente, pelo menos desde que me iniciei há quase 20 anos, quando passei a ser atento a isso.

Citei acima como exemplo apenas uma das áreas do mercado de Ilustração Científica, a área editorial, me restringindo às publicações de guias de identificação. Contudo, o espectro de atuação do Ilustrador Científico é muito amplo, e está sempre avançando em direção a novas áreas.

Áreas de atuação

É bastante difícil a tarefa de enumerar todas as áreas em que pode atuar o Ilustrador Científico, porque a atividade é tão abrangente quanto a atuação da ciência, e elas andam então de mãos dadas, por assim dizer. Mas tentarei aqui traçar um panorama geral das oportunidades da profissão.

Pesquisa

Começo pelo local onde surge a própria necessidade de ilustrações: o ambiente acadêmico. Nas universidades, nos centros de pesquisa em geral (pesquisa médica, biológica, química, física, geológica, paleontológica etc), em museus zoológicos, jardins botânicos, sempre se faz necessário o uso da ilustração como apoio a artigos científicos, textos didáticos para o público, murais, painéis, afrescos e o que mais seja possível imaginar (e pesquisadores são sempre muito imaginativos... além de adorarem a ideia de acrescentar ilustrações aos seus projetos).

No ambiente acadêmico, ou seja, na área da pesquisa científica, e mais especificamente a pesquisa biológica, é bastante frequente a solicitação de ilustrações em preto e branco. Tradicionalmente se pedem mais trabalhos a nanquim, mas com o avanço da tecnologia de impressão das revistas onde os artigos científicos são publicados, o lápis começa a ser muito solicitado também. Cabe ao próprio ilustrador examinar as revistas onde o pesquisador pretende publicar, ver se nelas já há publicações de desenhos a lápis com bons resultados, e então convencer seu cliente a usar o lápis, caso sinta que essa técnica pode trazer melhor resultado à ilustração.

Ainda que seja muito frequente, o preto e branco não é exclusivamente solicitado no ambiente acadêmico. Várias são as oportunidades em que os pesquisadores precisam do uso das cores, seja quando publicam livros, guias, pôsteres para congressos, ou mesmo artigos em revistas que fazem uso das cores. Nas ilustrações para as áreas médica, química, física, paleontológica, chegam a predominar os pedidos de trabalhos em cores, seja para infográficos (como é frequente em ilustrações de química ou fisiologia), ou para as ilustrações estruturais (como as anatômicas da área médica por exemplo) ou mesmo para ilustrações de organismos inteiros (como as paleontológicas).

Enfim, a área acadêmica tem um campo imenso para a atuação do ilustrador, e basta apenas compreender um pouco o funcionamento da pesquisa para que se possa vislumbrar as inúmeras possibilidades de trabalhos para o ilustrador.

Editorial

O mercado editorial é outra área que costuma trazer muita demanda a ilustradores científicos. As editoras encomendam desde uma, poucas, a muitas e muitas ilustrações para um mesmo livro, ou coleção de livros, ou para gerar produtos diversos como cartões, agendas, capas de caderno... Tudo que for possível ser impresso. Normalmente as editoras impõem seu próprio valor por ilustração, mas isso não é uma regra, há muito espaço para negociação. Esse espaço tem aumentado graças à conscientização profissional e tende a se ampliar à medida que os ilustradores começarem a agir com união de modo a impor remunerações mais justas. Caso a maioria se mobilize, as editoras terão que admitir pagar melhor ou ter trabalhos de quem se submeter ao baixo pagamento. Espera-se que os que se submetam a isso tenham trabalhos de qualidade inferior, mas isso não é regra. Muitos ilustradores excelentes se submetem a receber ninharias pelo receio de perderem mercado, o que é uma ilusão que funciona contra todos. Caso todos recusassem ninharias, as editoras teriam que se submeter a pagar melhor.

É comum as editoras trabalharem de modo a "fechar pacotes", ou seja, encomendam inúmeros trabalhos ao ilustrador por um preço já concluído, e com isso tendem-se a reduzir os custos. Pode parecer mais conveniente para alguns, dependendo do modo como cada um trabalha. No meu caso, em que cobro por tempo e sempre demoro por pecar pelo excesso de meticulosidade, acaba sendo desvantajoso.

Embalagens / Comunicação Visual

Se entrarmos em uma farmácia e rodarmos um pouco pelo corredor, veremos muitos exemplos de ilustrações científicas para embalagens, seja em xampus, sabonetes ou cosméticos vários ou naquelas pílulas de produtos fitoterápicos. Tudo aquilo é feito em princípio dentro dos moldes da ilustração científica, levando em conta a precisão na representação. Há empresas de cosméticos - daqueles não vendidos em estabelecimentos comerciais - que solicitam muitos trabalhos e podem ser cotadas entre as geradoras de algumas das melhores remunerações possíveis.

Também pode ser muito divertido procurar por erros botânicos na representação de plantas. Uma flor ou fruto se originando de uma estrutura de onde nunca poderia surgir... bem, nem sempre os ilustradores contratados para aquilo estão suficientemente treinados em botânica e podem então acontecer umas gafes.

Além desses exemplos, na própria farmácia poderemos encontrar cartazes ao público ou produtos promocionais de âmbito interno (voltados ao farmacêutico e realizados por indústrias fabricantes de remédios), todos materiais em que pode frequentemente constar alguma ilustração, seja de caráter médico ou botânico, voltada a representar a origem dos fármacos ou ilustrar seus mecanismos de ação.

Há ainda, dentro da área de comunicação visual e talvez em caráter mais excepcional, a demanda por ilustrações para cardápios de restaurantes ou impressos de propaganda imobiliária, voltados a valorizar a vida vegetal em condomínios ou seu projeto paisagístico. Muitos segmentos do mercado podem prezar uma representação gráfica mais apurada e fiel, dentro dos moldes da ilustração para a ciência.

Mercado de Arte

Esse é um mercado em franca expansão mundial, ainda pouco aquecido no Brasil, mas cujas perspectivas podem melhorar à medida que cresce a popularidade dos Ilustradores Científicos por aqui, com a ajuda das exposições coletivas que vimos organizando nos últimos anos. Trata-se de um segmento promissor para as artes biológicas, afinal pouca gente vai se interessar em obter uma ilustração de uma incisão cirúrgica para retiro de um coágulo temporal, ou uma representação gráfica da molécula de amônia. Mas nunca se sabe...

Essa área é definitivamente a que oferece as maiores possibilidades ao ilustrador em termos financeiros. Em palavras simples, essa é a área que traz a maior bufunfa. Mas isso vai depender de alguns fatores, começando com a forma como se trabalha. É preciso que os trabalhos tragam valor artístico intrínseco, ou seja, elevado grau de exigência em aspectos técnicos, composicionais, temáticos etc. Dizendo de modo mais claro, o valor das obras será tanto maior quanto maior o desafio que elas representam ao artista ou ao apreciador da obra. Caso se trate de um organismo raro (animal ou vegetal), sendo representado em seu habitat, há um desafio inerente à concepção da obra. Caso seja extinto, há mais ainda envolvido nisso, por vezes mesmo a criação imaginativa de cores e estruturas não conhecidas, como é o caso de peles ou escamas de animais dos quais se conhecem apenas os esqueletos.

Entretanto, não é apenas raridade que confere à obra valor artístico. Esse valor provem essencialmente da visão original do artista. Sua escolha de posicionamento em relação à luz, seu enfoque particular do que pretende representar, a composição que escolhe, o horário do dia em que contextualizará a obra, seu preenchimento do papel, se total ou apenas parcial... Enfim, são inúmeros os fatores que envolvem a criação de obras de alto valor e isso pode ser, bem melhor que descrito, intuído, a partir da observação do trabalho dos ilustradores mais eminentes deste planeta ou (principalmente) de outros.

A proposta básica nesse segmento é a venda de originais. Ilustrações Científicas de organismos ou de ambiente vendidas em seu suporte físico. Mas também se pode explorar o mercado de reproduções, ainda que o original seja passado adiante. O ilustrador pode se reservar o direito de comercializar a imagem, pois apesar de ter vendido uma obra física, a imagem pode permanecer sendo dele para que use como desejar, até mesmo para figurar em algum livro. Isso depende do contrato estabelecido no processo de venda.

Para se alcançar o mercado onde essas obras encontram espaço para serem vendidas, é preciso procurar se inserir em exposições internacionais que acontecem com frequência. Há por exemplo o Focus on Nature, a Exposição Trianual do Hunt Institute ou a Botanica Exhibition. Em breve deverei trazer a esse blog os links mais importantes sobre exposições ao redor do mundo.

Também é possível, evidentemente, procurar a inserção no mercado exterior por meio de agentes, galerias ou outras formas de apoio humano. É preciso tomar cuidado, no entanto, pois nós brasileiros tendemos a acreditar que golpes são coisa apenas de brasileiros. Golpes são coisas de seres humanos, seja qual for a nacionalidade. Portanto é bom ter o pé atrás com qualquer negociação, mesmo se estivermos tratando com gente de "primeiro mundo". Golpistas de primeiro mundo sabem dar golpes de primeira.